O que a neurociência explica sobre planejar o futuro
Projetar o futuro é, antes de tudo, um exercício de autoconhecimento. A forma como percebemos o futuro está diretamente ligada a como o cérebro processa o tempo. Segundo Daniel Hosken, neurocientista e mestre em neuroengenharia pelo Instituto Santos Dumont, a atividade do córtex pré-frontal, região responsável pela continuidade do “eu” ao longo do tempo, diminui quando pensamos no nosso futuro distante.
Esse fenômeno é chamado de distanciamento do eu futuro. Ele torna o amanhã menos relevante do ponto de vista neurológico, o que dificulta colocar em prática qualquer estratégia de longo prazo.
Por isso, subestimar a importância do planejamento futuro não é uma falha de caráter. É um comportamento previsível do cérebro, e ele tem impactos diretos na capacidade de uma pessoa, ou, nesse caso, de uma empresa, de se adaptar.
E sim, outros estudos também mostram esse fenômeno. Pesquisas conduzidas por Hal Hershfield, professor de comportamento do consumidor na UCLA, usaram ressonância magnética para observar o que acontece quando alguém pensa no próprio futuro distante. A atividade em regiões do córtex pré-frontal ligadas à identidade e à continuidade do “eu” cai quando a pessoa projeta a si mesma daqui a cinco ou dez anos. Em alguns dos estudos, essa atividade neural se aproximava mais da que aparece quando pensamos em um estranho do que da que aparece quando pensamos em nós mesmos hoje (Hershfield et al., 2009, Social Cognitive and Affective Neuroscience).
Isso significa que a versão de uma empresa (ou de uma pessoa) que vai colher os resultados de um plano de ação não é sentida, no momento em que o plano é criado, como a mesma que está tomando a decisão. Comprometer recursos, tempo e atenção hoje para um benefício que só existe para essa “outra pessoa” no futuro é, neurologicamente, uma escolha difícil de sustentar sem apoio externo.